RSS

Pages

Invólucro

Do que tenho medo?
Em parte penso que não sei. Mas acho que temo o excesso, o exagero, o absoluto que em toda sua proporção sempre pode prejudicar.
Tenho medo da dor. A que neutraliza, fere, mata. 
Temo o abandono, este seguido da dor.
Temo a escuridão sem companhia, porque esta assusta se se está só. 
Temo a insanidade, o dúbio e o nada, por que estes andam muito lado a lado e em todo caso desola a alma, causando a perda dos sentidos e o vazio completo.
Temo o descaminho, pois a estrada sempre me foi chave segura de prisões interiores e o caminhar, a razão certa nas decisões incertas.
Temo as perdas, estas que não se reparam, que não se consertam e nem se costuram, temo antes de tudo não adaptar-me a elas.
Temo o desconsolo, a tristeza mesmo no seu grau mais leve, pois esta vem a despertar minh´alma de seu sonnho perene de alegria.
Temo a mágoa, esta que se vira dos dois lados e tanto pode fazer-me quanto causar a vítima.
Temo o destempero que pode causar o pavor e virar reles cinza de um tocha incendiada de sandice.
Temo a decepção, a agonia que estampa os outdoors do ser e que não se desprega tão facilmente.
Temo a ilusão, pois ela apenas me acena de longe e eu não sei ao certo o que vai me propor, por isso mantenho-me de longe, temerosa de que depois de iludir-me venha a adquirir outras certas fobias.

Nara C.
Ipês, 27/2/11

amiúde

Sonho triste com a espera
do dia que nunca vem.
O tempo parece infecundo,
o amor me parece imundo
e mudar eis a única chance de
me refazer.
Tive sonhos outrora,
sonhos iguais aos de amanhã;
nos olhos tive esperança
e no pensar uma lembrança
de que tudo fosse igual.
Igual a espera vencida,
que nunca depois da partida, 
do amor possa me arrepender.

Nara C.

Dedicatoriando

A ti meu vestido amarelo
a ti minha cara lavada
a ti o meu corpo em balanço
a ti meu desejo,
minhas vestes,
minha fala
a ti, relógio disfarçado de tempo
minha vida
disfarçada de sonhos.

Nara C,
23/1/11

Antagonismo

Há na alegria o desespero de um poeta
que por brio ou precisão ampara seu riso em meio ao descaso.
Há no prazer um misto de desconforto e morte,
mas é a isso que dão o nome de gozo.
Há na compaixão o tempero fundamental para a sorte do convívio,
sem ela o prazer e a alegria recebem nomes diversos e podem até confundir.

De alho a bugalho, o caminho é longo.



Nara C.
16/1/11

Logro

No mundo das aparências
entende-se que o engano
é o princípio do auto desconhecimento;
engana-se mais a si, do que
o outro que vos ouve.

Nara C.

Razão inconfessa

Metade de mim se encontra à beira de um precipício, esperando a outra metade jogar-se para juntar-se a ela.
Parte de mim junta seres adoráveis, tato, olfato e afins,
numa redoma de sonhos possíveis.
A outra metade que digo, ouve calada os sons do exterior. Observa, pesa, pondera... é sensitiva, é racional, mas ainda assim espera a outra metade jogar-se ao precipício para juntar-se a ela.

Nara C.

Despertencer

Encontrei-te ao acaso numa noite dessas de verão chuvosa. Por ser verão ou por ser chuvosa, encontrei você. Não acaso simples, acaso planejado desses com hora e endereço lembrados.
Manhã seguinte, céu de efeméridas; pulsar atento ao teu olhar de arco-íris. Me pertencias, era o que dizia o idílio amoroso de meu pensamento, te pertencia com a brevidade da estima que tinha por mim mesma.
Mas um dia sem mais nem menos saíste do banho direto pra rua. No céu já não havia efeméridas e o teu olhar um tanto incolor, encontrou no retorno um pulsar desatento. Por acaso ou por destino, desencontrei você.

Nara C.

Pequena estranheza

Dançando na chuva - google images

Ontem o mundo me pareceu pequeno,
As luzes se expandiram
e os meus olhos puderam ver com ternura,
uma jovem bela na chuva.
A jovem se chamava Amor
e a chuva era o meu desejo
Por onde ela ousava pisar.

Nara C.

fantasia de zeugma

Amor que nem sempre é abstrato
solidão imprópria
entre dois nadas
impregnados de tudo;
tudo sobre o amor
que fantasiado tende a filmar caravelas de luz,
lampejos que disseminam o sêmen
da saudade anoitecida.

Nara C.

Reencontro

A primavera dos anos bateu-me a porta pela vigésima quinta vez;
depois de uma espera breve,
abri a porta de leve
a ponto de fazê-la adentrar.
- Veio cedo, disse eu.
- Melhor que nunca, respondeu sádica.
Rimos juntas desvairadas,
ao seu modo cada qual se despediu
numa felicidade insuspeita
forjamos risos e espreitas
de um reencontro tardio.

Nara C.