A paixão é um dispositivo de auto destruição.
Me refiro aos desejos carnais obviamente; decerto que a paixão não seria de toda má, há sim o que se aproveite, mas na sua fórmula geral a paixão traz prejuízos incalculáveis ao coração.
Por outro lado viver requer sacrifícios e se doar é componente essencial disto.
Viver sem paixão seria o mesmo que inexistir. Alguém que não tem afeição pela vida vive mediocremente, sem motivação, sem alegria, sem a graça infinita de se sentir único.
Por muito tempo fiz de mim refém desse vício que embriaga e enlouquece. Priorizei ao meu modo juvenil o bem estar do meu corpo e assim esqueci que meu espírito precisava também se alimentar. Este desequilíbrio me levou por um tempo à uma falência emocional; mas depois me reconstitui, montei amiúde todos os pedaços que estavam soltos dentro de mim. Levei um tempo de fato, mas logo me senti melhor, lúcida de minha fraqueza, feliz por voltar à vida sã.
Não demorou pra que eu me perdesse outra vez, bastou uma semana pra saber que seria pra sempre, mas que este pra sempre acabaria como o outro.
Enamorei-me dos meus atos tão logo o outro elogiasse. Vedei os olhos de modo que só a ele conseguia enxergar.
No topor das horas insanas, criei subterfúgios para inalterar a origem daquilo que eu era. Mas a influência era tamanha que descrente pus-me a sodomizar a minha dor.
Perdi o brio, alcancei o que pra mim era inaceitável, me tornei a outra metade latente em mim.
E agora só, ironizo a vida que não me foi permitida viver. Desdenho dela e de tantas outras que se apresentam.
Relembro rostos e vozes que por vezes amanhecem perto de mim. Os encaro, tento os reconhecer, mas inútil é o meu esforço. Meu corpo está presente, minha alma não... e percorro feito tonta as salas vazias da minha imaginação; não encontro o que perdi, pois sequer sei se perdi.
Vivo de momentos subversivos: vou, não vou; quero, não quero...e no fim cumpro mordaz a minha pena, sob a custódia fiel da companheira solidão.