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Ipê florido



Os ipês floridos expressam em mim o vazio em forma de amor. O amor que inabita meus dias mas que presente está em mim, latejando poros abaixo, a tessitura do meu ser.
A vontade de prolongar essa sensação me é às vezes contraditória, desejo beber do pote, estancar a fonte, viver com igual plenitude a magia e o encanto. Mas logo vejo condicionais, barco a vela que me segue rio abaixo.
Como os ipês, o amor que em mim achou morada está florido. Encontra-se no seu ápice primaveril e floresce terna e despretenciosamente a cada manhã que decidida me ponho a pensar.

**
Eu hoje, cega de contentamento pus em desvelo meus sonhos
neles estavam teus passos
que ao meu desejo vinha de encontro
mas farta de amparo voltei a realidade
encontrei tua ausência
além do cheiro e outras coisas palpáveis
tive angústia, lembrei tua voz
e desejei o afago

Pra onde vão os meus sonhos?
de quem são os teus olhos?
até quando pertencerá ao céu
essa estrela que brilha em segredo?

Nara C.
18/9/09

Primavera mórbida

Eu só queria viver
O incolor da primavera
Nas minhas mãos
A quimera
Da menina que quisera
Vencer o sol
Pela janela

No perecer das caravelas
Que a tarde se atraca
Nos braços
De um porto
Qualquer
Morto
Poderia supor
que aquela não era
uma manhã de primavera

Nara C.
16/1/09


Dia de decidir/mudar o destino
dia de prestação de contas comigo mesma:
o yin ou yang?
o certo ou o errado?
o torto ou o direito?
lá ou aqui?
Dia de optar pelo claro
e o óbvio é ser feliz

**
Discórdia
quase encardida
é essa do meu ventre
alvitre
que espalha
sem ter chão
amor aos quatro cantos
do vento.

Nara C.

in memorian

Nos pés de cupu-açú
Jaz uma raiz de outono
Permeada de lembranças dele
Meu bom e saudoso avô

Rosas e margaridas
Risos e plantações
Era terno o romper das horas
Em que se via um velhinho
Plantando um pé de caju.

Nara C.

Frida



Sou Frida Khalo à espera de Diego Rivera, com o mesmo terno e (ás vezes) passivo amor.
Olho para as primaveras de minha vida e vejo um futuro florido, tudo tem muita cor; mas como Frida não pinto em quadros minha vivência. Me faltam pincéis.

**

Crepúsculo


Ouço de longe o soluço
de uma saudade pétrea
Com imagens coloridas de um passado em preto e branco
Calor que se angustia e foge
pra longe do frio
foge.

Nara C.
A paixão é um dispositivo de auto destruição.
Me refiro aos desejos carnais obviamente; decerto que a paixão não seria de toda má, há sim o que se aproveite, mas na sua fórmula geral a paixão traz prejuízos incalculáveis ao coração.
Por outro lado viver requer sacrifícios e se doar é componente essencial disto.
Viver sem paixão seria o mesmo que inexistir. Alguém que não tem afeição pela vida vive mediocremente, sem motivação, sem alegria, sem a graça infinita de se sentir único.
Por muito tempo fiz de mim refém desse vício que embriaga e enlouquece. Priorizei ao meu modo juvenil o bem estar do meu corpo e assim esqueci que meu espírito precisava também se alimentar. Este desequilíbrio me levou por um tempo à uma falência emocional; mas depois me reconstitui, montei amiúde todos os pedaços que estavam soltos dentro de mim. Levei um tempo de fato, mas logo me senti melhor, lúcida de minha fraqueza, feliz por voltar à vida sã.
Não demorou pra que eu me perdesse outra vez, bastou uma semana pra saber que seria pra sempre, mas que este pra sempre acabaria como o outro.
Enamorei-me dos meus atos tão logo o outro elogiasse. Vedei os olhos de modo que só a ele conseguia enxergar.
No topor das horas insanas, criei subterfúgios para inalterar a origem daquilo que eu era. Mas a influência era tamanha que descrente pus-me a sodomizar a minha dor.
Perdi o brio, alcancei o que pra mim era inaceitável, me tornei a outra metade latente em mim.
E agora só, ironizo a vida que não me foi permitida viver. Desdenho dela e de tantas outras que se apresentam.
Relembro rostos e vozes que por vezes amanhecem perto de mim. Os encaro, tento os reconhecer, mas inútil é o meu esforço. Meu corpo está presente, minha alma não... e percorro feito tonta as salas vazias da minha imaginação; não encontro o que perdi, pois sequer sei se perdi.
Vivo de momentos subversivos: vou, não vou; quero, não quero...e no fim cumpro mordaz a minha pena, sob a custódia fiel da companheira solidão.

Voraz

Os girrasóis na janela
proferem coisas indizíveis
Suas petálas embora frágeis
Ferem o casulo da borborleta que viria a ser

Ventania espalha o fogo
adentra à alma a solidão
E eu corro sóbria de desespero
pelo descampado mastro que é o teu corpo

Nara C.