RSS

Pages

Reencontro

A primavera dos anos bateu-me a porta pela vigésima quinta vez;
depois de uma espera breve,
abri a porta de leve
a ponto de fazê-la adentrar.
- Veio cedo, disse eu.
- Melhor que nunca, respondeu sádica.
Rimos juntas desvairadas,
ao seu modo cada qual se despediu
numa felicidade insuspeita
forjamos risos e espreitas
de um reencontro tardio.

Nara C.

Ínterim

Meu desejo verte sangue e suor quente
salta trapezista por bocas
e línguas alheias.

Verossímil ao cuidado com as línguas,
beijo bocas com cautela
e afago olhos com razão.
Sobretudo se as retinas ainda jovens,
se misturem com ar sereno,
senil,
moreno

Nessa hora meu encanto cede
e meu desejo que antes verte
deleita não mais trapezista
numa cena pequena
da mais pura emoção.

Nara C.

Alento

Quem me dera
Na primavera
Olhar o sol da janela
Beijar o vento
Que tento
Tento em vão uma carícia
Delícia!
Ter a vida em cor assim
Nada ruim,
Quem dera.

Nara C.
Indigência


Peço uma esmola
a um coração carente
que de amor necessita
para se regenerar
e se assim não puder
desta forma se arrumar
peço por caridade
que façam essa penitência
apreguem-o num quadro alto e escrevam:
“- morreu de amor, paciência!”

Nara C.

A...deuses

eu que em ti habita,
Transita contraditório na condição do você
Que inconseqüente me persegue.
Sacio minha sede de pele
No vão dos sonhos noturnos,
Que soturnos tendem a me assombrar.
Impetuoso destino
Que logo me escapará
Por entre os dedos, frases e janelas
E então... será tempo de te esquecer.
Vejo-te ainda numa distância que a mim não pertence;
Como outros que se apagaram
Viraram poeira e pó
Tu apenas se vai como os outros
Numa distância que a mim não pertence mais.


Nara C.

Motim

Um beijo
que desejo
a calma que o gozo em palavras
ressoa
e retumba n´alma insana
por quase nada profana
emerge em mim a loucura
que nem mesmo a
minha cura
é capaz de aplacar.

Nara C
27/9/10

Destemperança


Como o ipêzinho solitário,
que florido permanece em meio ao tempo insólito,
assim é o meu coração que sem grandes razões vive a esmo
entre a dor e a loucura.
Há em mim o desejo pérfido de um corpo,
me consome o fogo desse destempero.
Desejo que além de imundo galopa como um cavalo
pela raiz do meu consciente, me leva ao círculo vicioso
de onde não se pode escapar a menos que se açoite o cavalo abismo a dentro.
Há em mim a insanidade obscura a qual a razão não alcança
e entre as masmorras do inconsciente habita.
Há uma feliz saudade sentida, medida pela brevidade do abraço e dos beijos. Voracidade intermitente que até me deixa doente,
da dor que não cicatriza.
O ipêzinho vive em salutar primavera,
talvez dentro de si perdure a certeza de outras muitas estações.
Tal como ele sobrevivo solitária a estiagens e outras épocas adversas,
carregando o peso da permanência.
A primavera passa, e embora o sol resseque o meu caule
eu não posso deixar o vento levar minhas flores.

Foto: Ipê florido por Nara C.

Atemporal

A demora vocifera o desejo da chegada
causando um frenesi impróprio,
coisas de exatidão;
Sintonia permitida,
passagem liberada

O desejo agora galopa na vontade de te ver,
a passos largos a saudade
crava a espora no encantamento
Que idílio,
doce tormento.

Pecado consumindo à pancadas
a solidez do amor.


Nara C.

P.s.

À espera dela
acenando da janela
sinto que meu peito arde
e não sei se é saudade,
ou se é palpitação
eu só sei que me intimida
e é mais forte que a vida
essa coisa de paixão.

Nara C.
13/09/10

APRENDI... (Baseado no texto de Shakespeare)

APRENDI de uma forma bastante dolorosa que se pode superar a perda,
que ela vem independente de quantos artificios usamos para impedí-la.
APRENDI que dá pra se viver com a partida, que ela é substantivo impróprio quando se fala de emoção.
APRENDI de maneira insuportavelmente dolorida que uma noite é tempo demais para se passar sozinho, ainda mais se esse tempo for usado para chorar.
APRENDI que a dor, essa que se sente na solidão de dois mundos, nos modifica à medida que aprendemos à moldá-la à nossas ações; que é possível até encontrar respostas positivas nessa dor.
APRENDI que não adianta usar todas as forças e argumentos para que uma pessoa fique em nossa vida, ela não ficará a menos que queira.
APRENDI que essa mesma pessoa pode voltar com o tempo, mas esse tempo poderá repetir o passado, principalmente o que não se resolve.
APRENDI que se pode ser feliz com o que se tem. Pequenas alegrias compõe o que chamamos de felicidade, e são nas horinhas despercebidas que a encontramos.
APRENDI que ser enganado por um amor, não é tão pior que por um amigo, e que é muito fácil acreditar numa mentira dita por alguém que se importa.
APRENDI que viver dignamente, requer mais que ser alguém, é preciso ver além, ter fé e entusiasmo para levantar na queda e não perder jamais a coragem de continuar caminhando.
APRENDI que algumas pessoas continuam na nossa vida por algum motivo e normalmente levamos um tempo para reconhecê-lo.
APRENDI que é possível conviver com o descaso, desde que não se dê tanta importância a ele.
APRENDI que a melhor maneira de ser feliz é aceitar com ternura o que não se pode mudar, pois viver é encontrar na mudança o trampolim para a melhora, mas se ela não vem, não é motivo para o desespero.
APRENDI que ainda que percamos a esperança, há sempre algo novo à nossa espera, para substituir ou acrescentar o que nos falta.
APRENDI com a demora que não faz mal uma dose de pressa e aprendi com essa que nem sempre ela pode ser inimiga da perfeição.
APRENDI que o tempo de vida que me resta é ainda grande o suficiente para reaprender quantas vezes forem necessárias e até lá terei finalizado a missão de aprender, visto que enquanto viva jamais perderei essa capacidade.


Nara C.
Paraíso dos Ipês/ Setembro de 2010