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Quem disse que no fim do poço só existe lama?

A vida como experiência diária nos apresenta de maneira simples seu verdadeiro significado, o que nem sempre é interpretado por justamente ser de igualdade simplória. Um arco-íris impregnado de cor nos trás a realidade uma pitada de mistério, há quem não aprecie? Um dia de chuva, um encontro marcado, acaso feito de páginas, retratos e memórias. Mesmo a vida apressada dos compromissos inadiáveis e nem sempre agradáveis, nos faz melhores, mais humanos, amadurece a folhagem dos dias, que imperceptíveis tendem a nos roubar bons momentos.
Houve quem já dissesse que no fim de um túnel frio e horripilante brilha uma luz, mas de onde esse cara tirou que ela só brilha no fim? Existe luz por toda parte especialmente no começo da nossa jornada que ainda imaturos relevamos os detalhes tão precisos do tempo.
A vida se esgueira por esses detalhes e cegos somos descrentes quanto ao seu sentido, cair, se sujar, se erguer e recomeçar é parte de um longo processo ao qual chamamos: AMADURECER.


Nara C.

Morrer de amor e continuar vivendo

Discutir sobre relações é por vezes complexo, difícil e incoerente. Por que nem sempre aquilo que pensamos na teoria, se torna a prática nossa de cada dia.
Somos amados à medida que achamos que somos, talvez isso explique por que tantas pessoas se encontram infeliz no amor, achando que não é correspondido, que não é amado... esses tipos de dúvidas comum a todo ser bípede portador de um coração carente de afeto, atenção e disposições físicas.
O fato é que ninguém entende o por que das escolhas feitas, o porquê das mudanças repentinas, do destempero, das discussões bobas e do ciúme ardil. Mais fácil explicar quantos motivos não havia, do que procurar um.
No fundo ninguém tem um manual de relação perfeita, e todos sofrem por um motivo que eles mesmo inventam, porque razão até há, mas ela nunca é unilateral e é aí que buscamos a válvula de escape para as eventuais decepções. O amor próprio é um dos segredos que pode recolocar nossa sã consciência de volta à órbita.
Por que morrer de amor, até pode... mas é bom continuar vivendo.

Nara C.

Felicidade o que é?

Felicidade é nome próprio? substantivo? conotação?
quando foi que inventaram a luz? quem sabe nao foi jesus?
sigo cá com minhas dúvidas nessa imensidão de céu
imenso porém são meus rastros
que passam fazendo traços
laçando qualquer compasso
sem se interessar no por quê

Imenso porém é o meu peito que tem por dentro um defeito:
de guardar quinquilharias
sorrisos desesperados, amores bem atrasados, paixões essas das grandes
(ainda que pequenas de nome)
e uma dúvida que se trumbica, assim que comunica:
se tenho amor e saudade
paixão que não é maldade
o que posso querer mais?

Se tenho lembrança antiga
amor que vale mais que a vida

Felicidade o que é?

Canto de longevidade


Em tuas manhãs dormidas
sossegas teu pensamento
no seio de vendavais;
mesmo espairecido
teu canto tão pouco ouvido
repousa em lençois floridos
teu cheiro de carnavais.


(Nara C.)

Ode ao imperfeito

Gosto do gosto amargo do café,
da televisão sem som,
do tapete gasto, desbotado e maltratado.

Gosto de gostar do incomum,
das peripécias que apronto com minha própria imagem,
rindo sóbria e desvairadamente
do que me distrai.

Sonho sempre com um jabuti morto à beira da estrada;
ele traja roupas de humano e carrega um saco de coisas velhas às costas.
O jabuti usa botas de borracha e sorri pra mim um riso amarelo, feio, murcho. Me aproximo, ele foge, volta a dormir o sono dos mortais; mesmo animal que não pensa, faz sua pausa para a morte e eu pauso do sonho para acordar no sono, livre do espanto, apenas rindo sóbria e desvairadamente do que me distrai.

**

S.O.S Haiti



Uns e outros estão pagando a conta pelos pecados do mundo. O Haiti vive hoje o que o resto do mundo NÃO gostaria de viver: catástrofe, dor e desgraça na sua forma bruta. Específica. Descomunal.
Seria a fúria de Deus? Ou o troco da natureza revoltada contra o homem?
Não há resposta suficiente para a quantidade de perguntas. O mundo despreparado assiste seu próprio enterro. E o homem que se diz superior, limita-se a sua insignificante sabedoria ante o universo.
Que fazer diante de tamanho caos?
Tem-se solução para praticamente tudo, inventaram a chamada revolução para indicar progresso, ou em outras palavras: PODER.
Decifraram segredos e mistérios da natureza e conquistaram com isso grandes avanços em prol (pasmem) da própria inexistência humana.
Revolucionam tudo, inclusive o conceito de Deus que hoje é culpado pela fome, miséria e tragédias como essa.
Em meio ao caos o homo sapiens se esquece de sua origem e impotente reconhece o seu tamanho debaixo do céu.


***

Cá com meus botões


De três coisas a solidão me serviu:
do egoísmo sensato em que volto a pensar em mim,
da avaliação sóbria que faço do mundo (e amadureço)
e da escrita que ponho a parir a torto e a direito (mais torto que a direito).

**

Janeiro

Já é Janeiro
mais um entre alguns
Janeiro que por ventura vim ao mundo
primeira parcela do tempo, do meu tempo...

Janeiro que eventualmente me orgulha,
que com alegria é esperado
e com graça admirado
pela pressa ou demora

Comemoro Janeiro com a felicidade de quem celebra
não só um novo tempo
mas a vida
as chegadas e partidas
e a graça oportunizada pelo novo ciclo

De glória coroo janeiro
pela dádiva de pertencer-lhe
e por assim ser, ter essa sede de principiar
pelo caminhos que me aguçam e apetecem
partindo sempre não com a pressa de quem jamais chega
mas com a demora de quem deseja ficar aqui e ali
desfrutando sempre do inicio
nunca do fim

E já que Janeiro representa começo
é bom lembrar que antigos amores
tiveram suas raízes aí neste Janeiro;
Antigos rostos e vozes que hoje me são gastos
pela memória do tempo
Marcaram cada Janeiro
que por ser um mês de entrada me presentou algumas vezes
com um novo amor ou paixão

Somam-se vinte e quatro os janeiros que conheci
Tive a sorte de contar de sobra os Janeiros
que de graça a vida me deu

Janeiros de cor de gaio,
Janeiros de minha vida.

**

...

Caneta, papel e solidão,
peça matriz do quebra-cabeça "doloroso".
Escrevo logo esqueço...
embriago-me na ilusão de pertencer aos feitos de papel,
léu,
escarcéu.

Como pode sentir
felicidade
este ser que inconsolada lambe palavras e alucina?

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Panorama


Sempre que amanhece escuro me lembro do Paraná.
Não sei se por que a recordação ainda me é recente, mas o vento frio me leva sempre ao panorama daquele estado.
Um pinheiro envelhecido amanhece em minhas lembranças o frescor de um sorriso fincado na alma
e que lá deixei...
sob o céu do Paraná.

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